quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Venda de ‘bomba’ provoca prisão de bando

Rio - Nove integrantes de uma quadrilha especializada em contrabandear e revender anabolizantes e medicamentos de venda proibida, inclusive falsificados, foram presos ontem por policiais da Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Saúde Pública (DRCCSP), na Operação Hércules 2. Outros dois estão foragidos. O grupo comercializava os produtos em academias da Zona Sul e pela Internet.

De acordo com o delegado Marcos Cipriano, os anabolizantes e remédios — principalmente estimulantes sexuais e emagrecedores — vinham ilegalmente de Paraguai, Argentina, Portugal e Espanha. Apontado como o chefe do bando, o empresário José da Silva Grilo, 45, não foi encontrado, e sua principal fornecedora também não. Cristiane Oliveira Brito, 35, seria a responsável pela conexão da quadrilha com a Europa, de onde vinha grande parte dos anabolizantes.

Os produtos eram trazidos por integrantes do bando e até enviados pelos Correios. Entre os presos estão um professor de Educação Física, o dono de uma academia em Itaguaí, um lutador e até um cabo da Marinha. Foram cumpridos 14 mandados de busca e apreensão no Rio, Niterói, São Gonçalo, Itaguaí e Cabo Frio.

A Academia JN, em Copacabana, onde trabalha Rogério Augusto Fróes Corrêa, 29 anos, um dos presos, foi vistoriada, mas nada foi encontrado. “Ainda não sabemos quanto eles lucravam com essa prática, mas nas interceptações telefônicas percebemos que a quantidade comercializada era muito grande”, disse Cipriano. O Conselho Regional de Educação Física informou que o Rogério não é habilitado para exercer a função de professor e foi enquadrado por exercício ilegal da profissão.

Listagens com preços cobrados foram apreendidas e mostram que os anabolizantes eram vendidos por valores que variavam de R$ 6 a R$ 180, emagrecedores de R$ 30 a R$ 100 e estimulantes sexuais de R$ 35 a R$ 90.

Um dos principais distribuidores dos produtos, Rogério foi preso em casa, em Copacabana, às 6h. Com ele, os agentes encontraram dois frascos de Poppers, semelhante a cheirinho-da-loló mais potente e que vem sendo consumido em festas rave, segundo o delegado Cipriano. Durante os quatro meses de investigação, a polícia descobriu que cada ampola custava cerca de R$ 100. “Nunca tínhamos ouvido falar nessa droga, que vem da Holanda”, disse.

CÂNCER E PROBLEMAS CARDÍACOS
A nutróloga Tamara Mazaracki explica que anabolizantes são hormônios fortíssimos que demoram a sair do corpo humano. “Há pessoas que pararam de tomar por mais de um ano e os exames de sangue seguem alterados”. Entre os efeitos negativos estão a cardiomegalia (aumento do coração) e o ataque ao fígado. Professor de endocrinologia da Universidade de Campinas, Marcos Tambascia, lembra que remédios para emagrecimento podem causar dependência, aumentam a freqüência cardíaca e agem no sistema nervoso causando irritabilidade, insônia e nervosismo. Ele alerta que, sem prescrição médica, os remédios podem causar parada cardíaca e morte.


CRIME CONTRA A SAÚDE E FORMAÇÃO DE QUADRILHA
Um dos nove presos não faria parte da quadrilha e agia de forma independente. As investigações mostraram que o lutador Carlos Joseph Myamoto, 24 anos, comprava e vendia os anabolizantes e medicamentos em programas de conversa instantânea pela Internet. Os outros presos são o comerciante Rogério Silva de Macedo, 27; Paulo Fernando da Silva Jordão, 46; Bruno de Oliveira Sousa, 28; o dono da academia Genética do Corpo, em Itaguaí, Cristiano Vitor de Sousa, 30; o cabo da Marinha Hélder Melino de Assis, 29; e Wellington dos Santos Pires, 23.
Todos foram autuados por crime contra a saúde pública e formação de quadrilha e podem pegar até 18 anos de prisão. Se a perícia comprovar que os remédios apreendidos são falsificados, os presos também responderão por tráfico.
Em fevereiro, a polícia desencadeou a primeira fase da operação Hércules e prendeu 14 pessoas que praticavam os mesmos crimes. Na época, três farmácias que vendiam remédios falsificados foram fechadas.
Preso ex-personal de ‘rainha’
Ex-personal trainer da rainha de bateria da Mangueira Gracyanne Barbosa, José Antônio de Lima foi preso na Academia Radar, em Copacabana, acusado de revender os produtos contrabandeados e falsificados. Ela diz ter malhado com José Antônio há mais de dois anos, mas garantiu desconhecer que o professor vendesse anabolizantes. “Me surpreendi com a notícia”, disse.
Após a prisão, houve tumulto quando policiais revistavam mochilhas e armários. Um professor se irritou com a presença da imprensa e agrediu cinegrafistas. Ele empurrou os profissionais e depois, deu uma ‘voadora’ (golpe que o agressor atinge a vítima, no ar, com os dois pés) nas costas do cinegrafista Júnior Alves, da TV Globo. Ele também sofreu escoriações no braço.